
O governo de Vladimir Putin iniciou uma nova e agressiva fase de recrutamento para alimentar o esforço de guerra na Ucrânia. Após sofrer perdas significativas de pessoal no campo de batalha, o alvo agora são os corredores das universidades russas. Segundo investigações da CNN, as instituições de ensino superior estão se tornando centros de alistamento disfarçados, utilizando uma mistura de incentivos financeiros, propaganda gamer e, em casos mais graves, coação direta contra estudantes.
Para atrair o público jovem, a propaganda russa adotou uma estética que remete a jogos de computador. Vídeos de recrutamento circulam em redes sociais universitárias sugerindo que as habilidades adquiridas em videogames são valiosas para as novas unidades de drones russas. Um dos vídeos comparativos mostra, lado a lado, um jogador à esquerda e um operador de drones à direita, com a legenda: "Escolha sua skin".
A narrativa tenta vender a ideia de que o serviço militar moderno é uma "experiência de alta tecnologia", permitindo que o jovem sirva longe das trincheiras da linha de frente.
A estratégia, contudo, possui um lado sombrio. Estudantes em dificuldades acadêmicas ou risco de expulsão tornaram-se alvos preferenciais. Relatos obtidos pela CNN mostram funcionários de universidades oferecendo o perdão de faltas e créditos pendentes caso o aluno assine um contrato militar. "Será como se os créditos que faltam nunca tivessem existido", diz uma recrutadora em vídeo gravado clandestinamente por um aluno.
Há também denúncias de pressão psicológica extrema: um estudante relatou que sua universidade ameaçou expulsar quase um terço de uma turma, tentando forçá-los a assinar contratos militares na hora para manterem suas vagas.
Apesar das promessas de contratos de apenas um ano e funções tecnológicas, especialistas alertam para os riscos jurídicos. O decreto de mobilização de 2022, que ainda está em vigor, estabelece que contratos militares podem ser estendidos indefinidamente até que a medida seja revogada pelo Kremlin. Na prática, o jovem que assina o documento não tem garantia de que permanecerá na unidade de drones ou de que poderá deixar o exército ao fim de 12 meses.
Mesmo com a oferta de altos salários e bônus financeiros — que tentam atrair aqueles em situações econômicas vulneráveis — o sentimento entre muitos estudantes ainda é de ceticismo. Em mensagens enviadas à reportagem, alunos classificam a propaganda como "bobagem" e afirmam que, apesar da pressão intensificada, a resistência ao alistamento permanece alta dentro do ambiente acadêmico.
A intensificação do recrutamento nas universidades é um reflexo direto da pressão que o sistema russo enfrenta para manter o fluxo de soldados na Ucrânia sem recorrer a uma nova mobilização nacional em massa, que seria politicamente impopular.