
Olá, leitoras e leitores do nosso NEUROPAPO. Antes de começarmos nossa conversa de hoje, quero que você respire fundo. Se você é mãe de uma criança atípica, talvez esse seja o único momento de silêncio do seu dia.
Eu sou Kleide Pereira, pedagoga, mestre em neuropsicopedagogia e especialista em AEE, mas hoje, mais do que meus títulos, o que fala com vocês é a minha indignação e o meu compromisso com a verdade. O nosso papo de hoje nasceu de uma estatística que sangra: 90% dos pais abandonam o lar após o diagnóstico de autismo.
Sabe quem fica? A mãe. Sozinha. O tema de hoje é a "Sobrecarga Invisível e as Mães que Desistem", porque precisamos dar nome ao que o sistema insiste em ignorar.
A sobrecarga invisível não é apenas estar cansada. É a mãe que, da noite para o dia, vira médica, advogada e motorista de UTI sem salário, sem folga e sem reconhecimento. É quem acorda de madrugada com o coração na boca, temendo uma convulsão. É quem ouve da própria família que o filho é "mimado" ou que "falta é cinta", enquanto se desdobra para pagar R$ 80,00 em um pacote de fraldas.
Palpite não paga conta. Cuidar exige tempo, saúde e o sacrifício da própria carreira. Muitas mães desistem do emprego porque a creche não aceita a criança. Desistem de si mesmas porque não sobra tempo sequer para comer. E, no limite da dor, algumas desistem de viver. Isso não acontece por fraqueza, acontece por abandono. Antes dessa mãe "desistir", o pai desistiu, o Estado desistiu e a rede de apoio desapareceu.
Se você conhece uma mãe atípica, meu recado é direto: não mande "força" por mensagem. A força dela já está no limite. Em vez disso, pergunte: "Posso ficar com seu filho por duas horas para você tomar um banho ou dormir?".
Pai: Levante do sofá. A responsabilidade é 50% sua, não um "favor" que você faz.
Família: Troque o julgamento pela escuta ativa.
Se ninguém segura a mãe, uma hora ela cai. E quando uma mãe cai, a criança cai junto.
Muitas vezes chamam vocês de "guerreiras". Mas vamos ser sinceras? Você não é guerreira porque aguenta tudo calada. Você é guerreira porque, mesmo exausta e sem rede de apoio, escolhe ficar todos os dias. Você luta pelo BPC negado, briga por uma vaga na escola inclusiva e comemora como um título mundial aquele "mamãe" que demorou cinco anos para sair.
Mas toda guerreira precisa de um exército, e o nosso está desfalcado. O que queremos não é uma medalha ou um post bonitinho no Dia das Mães. Queremos divisão de peso. Queremos políticas públicas sérias. Queremos pais presentes.
A maior guerra que travamos hoje não é contra o diagnóstico ou contra o autismo; é contra o abandono sistêmico.
NeuroPapo: Se a sociedade não segura a mãe, quem segura a criança?
Se você é essa mãe e está sentindo que o mundo vai desmoronar, ou se pensou em sumir hoje: você não está sozinha. Nós estamos aqui para dar visibilidade à sua luta. A gente se segura junto. Até o fim.