
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, manifestou forte contrariedade em coletiva nesta terça-feira (26/05), à forma como o debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho vem sendo conduzido no Congresso Nacional. Em pronunciamento realizado após reunião com representantes do Senado Federal, Skaf afirmou de maneira categórica que as propostas estão sendo utilizadas como "bandeiras eleitorais" e cobrou maturidade institucional para tratar o tema com base em dados técnicos e particularidades setoriais.
De acordo com o líder industrial, o projeto de Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que avança na Câmara dos Deputados peca pela falta de diálogo profundo com os setores produtivos do país. Skaf citou que o Brasil possui mais de 2.000 atividades econômicas distintas — cada uma com suas dinâmicas operacionais de logística, sazonalidade e pessoal — e que uma regra uniforme fixada na Constituição representa um retrocesso à modernização das leis trabalhistas.
"Este debate sobre a jornada de trabalho e a escala 6x1 é extremamente sério e envolve o futuro da competitividade da nossa indústria e do emprego dos brasileiros. Por isso, não pode e não deve ser tratado como uma mera pauta eleitoral ou plataforma de campanha", declarou Skaf, ressaltando o peso de uma decisão intempestiva sobre a relação capital-trabalho.
Críticas ao trâmite na Câmara e defesa da livre negociação
Ao detalhar o panorama do mercado de trabalho brasileiro, o dirigente destacou que, embora o teto constitucional seja de 44 horas semanais, a média real praticada no país gira em torno de 38 horas. No que tange à escala de seis dias de trabalho por um de descanso, Skaf apontou que ela atinge cerca de 30% dos 45 milhões de trabalhadores com carteira assinada, fruto de acordos consolidados ao longo de décadas.
"Em relação à escala 6 por 1, mais ou menos 30% dos 45 milhões de trabalhadores registrados trabalham na escala 6 por 1. Por que razão esses 30% ao longo de décadas, fruto da livre negociação entre as pessoas, entre os setores, entre as empresas, trabalham numa escala 6 por 1? Deve ter razões para isso. Nós temos que entender essas razões. Cada setor tem a sua particularidade. Em lugar nenhum do mundo você tem escala de trabalho engessada na Constituição. Isso não existe. Normalmente é a livre negociação", explicou o presidente da Fiesp.
O dirigente criticou a condução do projeto na Câmara, alegando que faltaram estudos setoriais aprofundados para medir o real impacto de custos na economia nacional.
"Para você mexer na vida, no trabalho dessas centenas, você precisa analisar com bastante cautela. (...) E você de repente engessar tudo isso na Câmara dos Deputados, faltou o diálogo, a celeridade e a forma açodada que foi tratado esse projeto que foi apresentado pelo relator, não foram ouvidos os setores", pontuou.
O alerta internacional e o exemplo do Chile
A preocupação das entidades industriais e de comércio representadas no encontro — que incluem setores de serviços, agricultura e shoppings — reside na perda de competitividade global do Brasil. Skaf mencionou o avanço de países vizinhos na atração de capital produtivo nacional e trouxe como sinal de alerta o impacto socioeconômico de reformas similares implementadas na América Latina.
"Nós estamos perdendo empresas para o Paraguai. O Paraguai já levou 500 empresas brasileiras lá, é 48 horas. (...) O que é que aconteceu no Chile? No Chile, em 2024, houve a redução de jornada. Houve algo semelhante. O que é que aconteceu? Aumentou a informalidade, aumentou o desemprego, aumentou a inflação e — olha um detalhe importante — o governo perdeu a eleição", alertou Skaf.
Expectativa de equilíbrio no Senado
Ao encerrar o balanço da reunião técnica, Paulo Skaf ponderou que o setor produtivo não se recusa a dialogar sobre avanços nas condições de trabalho, contanto que as negociações ocorram fora de períodos de apelo eleitoral e sem pressões políticas imediatistas. A federação depositou votos de confiança na análise do texto quando este atingir a Câmara Alta do parlamento.
"A nossa esperança — e queremos acreditar — é que no Senado o caminho será trilhado de uma forma diferente, com mais serenidade, com mais responsabilidade, com mais discussão de forma mais democrática e que busque realmente aquilo que seja melhor para o Brasil", concluiu.
Fonte da informação: A matéria do jornalista Paulo Silva, teve como fonte o pronunciamento e entrevista coletiva de Paulo Skaf transmitidos pelo portal jornalístico Poder360.