
Você já assistiu a uma partida de futebol e ouviu o grito de gol do vizinho antes de a jogada aparecer na sua tela? Apesar de parecer um problema na transmissão, a diferença tem explicação técnica.
Um teste realizado pela Broadcast Academy, especializada em radiodifusão, comparou os principais meios de transmissão atualmente utilizados no Brasil: TV Digital aberta (UHF), satélite e streaming. O resultado mostrou diferenças significativas no tempo que o sinal leva para chegar ao telespectador.
No universo das transmissões de TV, especialmente em eventos esportivos ao vivo, uma das medidas mais importantes é a chamada latência "Glass-to-Glass". O termo representa o tempo que uma imagem leva para sair da câmera que registra o lance no estádio e aparecer na tela do telespectador.
Em uma partida de futebol, por exemplo, essa diferença de poucos segundos pode determinar quem vê o gol primeiro. Quanto menor a latência, mais próxima do tempo real é a transmissão.
Segundo a entidade, o fenômeno "quem grita gol primeiro" acontece porque cada tecnologia utiliza processos diferentes de codificação, transporte e distribuição do sinal de áudio e vídeo.
No teste, a TV Digital aberta por antena UHF foi a mais rápida. O sinal via satélite apareceu com atraso de dois segundos em relação ao UHF. Já a transmissão pela internet apresentou a maior defasagem: 11 segundos atrás da TV aberta.
Os dados registrados no mesmo instante mostraram:
Setup de monitoração das 3 fontes estudadas mostrada no teste | Foto: Broadcast Academy
A TV Digital terrestre utiliza equipamentos dedicados para transmissão em tempo real e opera com baixíssima latência. Após ser codificado, o sinal é enviado diretamente para a antena transmissora e chega às residências praticamente na velocidade da luz (~300.000 km/s).
Além disso, as televisões decodificam o conteúdo diretamente, sem necessidade de armazenamento temporário.
No caso do satélite, o sinal percorre cerca de 72 mil quilômetros entre a estação terrestre, o satélite geoestacionário e a antena receptora. Só esse trajeto adiciona aproximadamente 240 a 270 milissegundos de atraso.
Além disso, o conteúdo passa por processos adicionais de compressão e recodificação antes de ser retransmitido.
O maior atraso ocorre nas transmissões pela internet. Isso acontece porque plataformas como YouTube utilizam tecnologias que dividem o vídeo em pequenos blocos de dados, chamados de "chunks".
Antes de iniciar a reprodução, o aplicativo precisa armazenar parte desses blocos em um buffer de segurança para evitar travamentos causados por oscilações na conexão.
Além disso, o conteúdo passa por processamento em nuvem e distribuição ABR - Adaptive Bitrate (1080p, 720p, 480p) por servidores espalhados pelo mundo, aumentando ainda mais o tempo de entrega.
Se o seu vizinho estiver assistindo ao jogo pela TV aberta e você estiver acompanhando por streaming, ele pode ver o lance até 11 segundos antes. É por isso que, em partidas decisivas, o tradicional grito de gol costuma chegar primeiro pela janela.