Por: Paulo Silva Portal de Notícias Zoom TV
Com o advento da Copa do Mundo, o Brasil passa por uma metamorfose visual. As ruas se pintam, as camisas de verde e amarelo saem dos armários e um sentimento de patriotismo inflama os corações de norte a sul.
No entanto, quando a melodia começa a tocar nos estádios e arenas, uma realidade incômoda se manifesta de forma silenciosa: a grande maioria dos brasileiros não sabe cantar o Hino Nacional completo e, pior, quase ninguém compreende o significado real de suas palavras.
Para romper com esse analfabetismo cultural e resgatar o orgulho consciente da nossa história, propomos uma incursão didática e profunda na estrutura, na história e no vocabulário dessa obra fundamental da nossa cultura.
Diferente do que muitos imaginam, a melodia e a letra do Hino Nacional não nasceram juntas. Existe um enorme "hiato" temporal entre a composição musical e os versos que cantamos hoje.
A Música (1822): Foi composta por Francisco Manuel da Silva, um músico e compositor carioca, pioneiro da música clássica e fundador do Conservatório de Música do Rio de Janeiro. Ele criou a melodia por volta de 1822, imbuído do forte espírito nacionalista e da efervescência da Proclamação da Independência por Dom Pedro.
A Letra (1909): A letra atual só surgiu 87 anos depois. Foi escrita por Joaquim Osório Duque-Estrada, um brilhante poeta, jornalista, professor fluminense e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele venceu um concurso público para a escolha da nova letra em 1909, que só foi oficialmente adotada por decreto em 1922, ano do centenário da Independência.
A grande barreira para a compreensão do hino reside no seu estilo literário: o Parnasianismo. Joaquim Osório Duque-Estrada estava sob forte influência dessa escola literária da época, caracterizada pelo uso de um vocabulário extremamente rebuscado, sofisticado e, principalmente, pelo uso de hipérbatos.
Para compreender a visão de Brasil construída por Duque-Estrada, marcada pela soberania e pela exuberância natural, faz-se necessário colocar as frases em sua ordem direta e traduzir seus termos arcaicos:
"Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heróico o brado retumbante"
Ordem Direta: As margens plácidas do rio Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.
Significado: Aqui há uma personificação (dar características humanas a coisas inanimadas). As margens calmas e tranquilas (plácidas) do riacho Ipiranga foram testemunhas do grito poderoso e forte (brado retumbante) da Independência do Brasil.
"E o sol da liberdade, em raios fúlgidos / Brilhou no céu da pátria nesse instante"
Significado: Uma metáfora que mostra a liberdade nascendo como um sol com raios brilhantes (fúlgidos) sobre o céu do Brasil no momento do grito da independência.
"Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte / Em teu seio, ó liberdade / Desafia o nosso peito a própria morte"
Ordem Direta: Se conseguimos conquistar com braço forte o penhor dessa igualdade, o nosso peito desafia a própria morte em teu seio, ó liberdade.
Significado: A palavra penhor significa garantia ou prova. O hino nos diz que, como conquistamos a garantia da nossa igualdade/liberdade através da força física e da luta (braço forte), agora o nosso povo, acolhido pelo sentimento de liberdade, tem coragem o suficiente para desafiar a própria morte para proteger a nação.
"Brasil, um sonho intenso, um raio vívido / De amor e de esperança à terra desce"
Significado: O autor usa uma apóstrofe (conversar diretamente com o Brasil como se fosse alguém). Ele afirma que o Brasil é a materialização de um sonho grandioso e de uma luz cheia de vida (raio vívido) de amor e esperança que desceu sobre o mundo.
"Se em teu formoso céu, risonho e límpido / A imagem do Cruzeiro resplandece"
Significado: Exaltação ao céu brasileiro, belo (formoso), limpo (límpido) e acolhedor (risonho). Há também uma referência histórica e astronômica à constelação do Cruzeiro do Sul (resplandece = brilha), que servia de guia para os grandes navegadores e está estampada na bandeira nacional.
"Gigante pela própria natureza / És belo, és forte, impávido colosso / E o teu futuro espelha essa grandeza"
Significado: Uma referência direta à dimensão territorial continental do Brasil (o quinto maior país do mundo). O Brasil é descrito como um gigante destemido, corajoso (impávido colosso), cuja beleza natural e força preveem um futuro proporcionalmente brilhante e grandioso.
"Terra adorada / Entre outras mil, és tu, Brasil / Ó Pátria amada! / Dos filhos deste solo és mãe gentil / Pátria amada, Brasil!"
Ordem Direta: Brasil, tu és uma mãe gentil para os filhos deste solo.
Significado: Utilizando o recurso da hipérbole (exagero) para destacar o país entre milhares de outras nações do mundo, o refrão consolida a pátria sob uma figura maternal acolhedora, generosa e protetora de seu povo.
"Deitado eternamente em berço esplêndido / Ao som do mar e à luz do céu profundo / Fulguras, ó Brasil, florão da América / Iluminado ao sol do novo mundo!"
Significado: Este é um dos trechos mais mal interpretados da história, muitas vezes usado de forma irônica para sugerir "preguiça" ou passividade do brasileiro. Na verdade, o berço esplêndido é uma metáfora poética para a nossa privilegiada posição geográfica e abundância da natureza. O verbo fulgurar significa brilhar. E florão é um adorno de ouro ou joia usada em coroas. Portanto, o texto diz: "Ó Brasil, tu brilhas como a joia mais bela (florão) da América, abençoado pela natureza e banhado pelo oceano e pelo sol do continente americano (novo mundo)".
"Do que a terra mais garrida / Teus risonhos, lindos campos têm mais flores / 'Nossos bosques têm mais vida' / 'Nossa vida' no teu seio 'mais amores'"
Ordem Direta: Teus lindos campos têm mais flores do que a terra mais vistosa (garrida).
Significado: Uma belíssima homenagem à natureza do Brasil. Duque-Estrada faz aqui uma intertextualidade (diálogo entre textos) com o famoso poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias ("Nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores"), símbolo máximo do Romantismo e do nacionalismo do século XIX.
"Brasil, de amor eterno seja símbolo / O lábaro que ostentas estrelado"
Ordem Direta: Brasil, que o lábaro estrelado que tu ostentas seja símbolo de amor eterno.
Significado: A palavra lábaro significa bandeira ou insígnia militar. O autor expressa o desejo de que a nossa bandeira estrelada represente para sempre o amor do povo pela sua terra.
"E diga o verde-louro dessa flâmula / 'Paz no futuro e glória no passado'"
Significado: Flâmula é um sinônimo poético para bandeira. O termo verde-louro faz referência às cores da bandeira (o louro representa a cor amarela dos cabelos loiros). O poeta deseja que as cores da bandeira anunciem um amanhã pacífico e honrem a glória histórica da conquista de nossa soberania.
"Mas, se ergues da justiça a clava forte / Verás que um filho teu não foge à luta / Nem teme, quem te adora, a própria morte"
Significado: A clava é um porrete de guerra, uma arma pesada de combate. O hino encerra com um aviso poderoso e de altivez: se o Brasil precisar erguer a arma da justiça para se defender em um combate (físico, moral ou intelectual), o povo brasileiro não fugirá da responsabilidade. Aqueles que amam e adoram esta pátria estão dispostos a enfrentar qualquer batalha sem recuar, sem temer a própria morte.
Toda a estrutura do Hino Nacional Brasileiro é uma verdadeira ode à liberdade e à emancipação do domínio português. Esteticamente e musicalmente, a obra carrega uma energia contagiante que arrepia as massas. Contudo, o verdadeiro patriotismo não reside em usar as cores verde e amarelo apenas para torcer pelo futebol em períodos de Copa do Mundo.
O patriotismo consciente reside em entender o que o nosso país representa e o que o hino evoca: uma nação soberana, gigante por sua natureza acolhedora e que exige de seus cidadãos a constante defesa da justiça. Que ao cantarmos os versos de Joaquim Osório Duque-Estrada e Francisco Manuel da Silva, possamos, finalmente, compreender o brado que ecoa de nossas próprias bocas.