
POJUCA (BA) — Na manhã desta quinta-feira (15/10/2026), a Câmara Municipal de Pojuca foi palco de um tenso embate político e regimental durante a Reunião Conjunta das Comissões de Justiça e Legislação e de Finanças e Orçamento. Em pauta, o polêmico Projeto de Lei nº 12/2026, protocolado no dia 2 de outubro pelo vereador Mário Alberto (Betão), que propunha a redução drástica na remuneração dos Secretários Municipais: de R$ 21.700,00 para R$ 10.432,39 mensais.
A proposta, contudo, teve o seu prosseguimento negado e foi devolvida pelas comissões, gerando forte repercussão sobre os limites orçamentários, a moralidade pública e a legalidade do processo legislativo.
Comissão de Justiça e Legislação: Gerusa Laudano (Presidente), Jorge Thieres (Relator) e João Paulo (Vogal).
Comissão de Finanças e Orçamento: Robe de Florzão (Presidente), Sandro Paim (Relator) e Jorge Thieres (Vogal).
Na justificativa anexada ao projeto, o vereador Betão argumenta que Pojuca possui uma população estimada em 33.608 habitantes (IBGE 2024) — sendo o menor município da Região Metropolitana de Salvador (RMS) —, mas paga aos seus secretários um valor desproporcional à sua realidade social e financeira.
Segundo levantamento comparativo apresentado pelo parlamentar com base em dados do TCM-BA:
| Município | População (IBGE 2024) | Subsídio do Prefeito | Subsídio do Secretário |
| Salvador | 2.568.928 | R$ 32.000,00 | R$ 30.000,00 |
| Camaçari | 319.394 | R$ 26.859,41 | R$ 24.622,63 |
| Lauro de Freitas | 217.960 | — | R$ 23.032,72 |
| POJUCA | 33.608 | R$ 31.000,00 | R$ 21.700,00 |
| Mata de São João | 44.839 | R$ 26.308,12 | R$ 19.830,24 |
| Dias D'Ávila | 75.053 | R$ 24.800,00 | R$ 17.290,00 |
| Simões Filho | 120.394 | R$ 29.000,00 | R$ 15.225,00 |
| São Sebastião do Passé | 42.936 | R$ 25.000,00 | R$ 11.000,00 |
| Catu | 50.153 | R$ 20.841,61 | R$ 10.420,81 |
"Enquanto Catu paga R$ 10.420,81 e São Sebastião do Passé paga R$ 11.000,00 — municípios com população maior que a nossa —, o Secretário de Pojuca recebe mais que o dobro. O subsídio é incompatível com a realidade de um município de pequeno porte", destacou o vereador na justificativa.
Além disso, o autor alertou para o risco de violação do teto da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF): "Enquanto o Executivo permanece inerte diante do desequilíbrio, esta Casa apresenta medida concreta de austeridade, sem prejuízo à prestação dos serviços públicos, liberando recursos para saúde, educação, infraestrutura e assistência social — áreas em que a população de Pojuca enfrenta grave precariedade".
Por sua vez, a defesa jurídica da viabilidade do projeto sustentou que o art. 29, inciso V, da Constituição Federal atribui a fixação de subsídios à Câmara Municipal, ressaltando ainda que a medida produz efeitos apenas a partir de 1º de janeiro de 2027, afastando qualquer retroatividade.
Apesar da pressão popular pela contenção de gastos públicos, os membros das comissões deliberaram pela devolução da matéria, amparados na tese de vício de licitude e incompetência do vereador isolado para propor tal alteração.
Em pronunciamento oficial ao lado dos demais vereadores das comissões (Gerusa Laudano, Robe de Florzão, Sandro Paim e João Paulo), o vereador Jorge Thieres externou o posicionamento oficial do colegiado e do setor jurídico do Legislativo:
"Esse projeto, onde tanto se fala, onde o vereador coloca um projeto pedindo uma redução do salário do secretário... Esse projeto ele é ilegal, o projeto tem vício de iniciativa. Não cabe ao vereador colocar um projeto desse. O projeto tem que ser colocado pela Mesa Diretora da Câmara, como manda a Lei Orgânica do nosso município e o Regimento Interno da Câmara de Vereadores." — Jorge Thieres.
O parlamentar citou os artigos 11 e 70 do Regimento Interno, afirmando que a iniciativa para propor leis de fixação de subsídios é exclusiva e privativa da Mesa Diretora.
Thieres complementou reforçando que a decisão não se opõe ao mérito da redução, mas sim ao descumprimento das regras:
"Nós das comissões de Finanças e Justiça e Legislação não somos contra a diminuição do salário do secretário. Porém, por o projeto estar ilegal, precisa acompanhar o rito da casa, seguir o nosso regimento interno... Nós não podemos atestar, nem relator, nem vogal, nem presidente, de uma coisa que tem ilegalidade. Por isso o projeto não tá indo para frente." — Jorge Thieres.
Com o travamento nas comissões e a devolução da proposta, o debate sobre o valor dos salários dos secretários municipais promete continuar inflamando os bastidores políticos de Pojuca.